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Home Integrity Reflexões O caldeirão do escriba

Quando a televisão do Estado se assume como televisão do Governo

Por: Mui Woothaceria

10 de Janeiro, 2026
em O caldeirão do escriba
Reading Time: 3 mins read
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Quando a televisão do Estado se assume como televisão do Governo
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Os órgãos de comunicação social do Estado existem para servir o interesse público, não para servir governos. Esta distinção, muitas vezes ignorada ou deliberadamente confundida, é central para qualquer democracia funcional. Em Moçambique, a recente decisão da Televisão de Moçambique (TVM) de passar a utilizar o domínio governamental gov.mz no seu site oficial levanta questões sérias sobre independência editorial, separação institucional e credibilidade pública.

À primeira vista, a mudança pode parecer meramente técnica, restrita ao universo da gestão digital. No entanto, para quem compreende o funcionamento do Estado e o papel da comunicação pública, trata-se de um gesto profundamente simbólico e politicamente carregado. Um domínio não é apenas um endereço na internet; é uma declaração de pertença, subordinação e identidade institucional.

O Estado é uma entidade permanente. Sobrevive a governos, partidos e ciclos políticos. Já o Governo é transitório, exerce o poder por mandato e deve ser fiscalizado. Quando um órgão de comunicação do Estado se coloca formalmente sob o guarda-chuva digital e administrativo do Governo, transmite a ideia de que não se vê como instrumento do interesse público, mas como parte da máquina governamental.

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É precisamente aqui que reside o problema. Uma televisão pública não deve ser extensão do Executivo, nem sua porta-voz. O seu papel é informar com rigor, pluralismo e equilíbrio, dando espaço à diversidade de vozes da sociedade, incluindo as críticas ao próprio governo. Ao assumir um domínio governamental, a TVM reforça a percepção, já bastante enraizada na opinião pública, de que funciona mais como televisão do governo do dia do que como serviço público de informação.

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As implicações são claras. Em primeiro lugar, há uma confusão perigosa entre Estado e Governo, que fragiliza os princípios democráticos e normaliza a ideia de que tudo o que é público pertence ao poder político em exercício. Em segundo lugar, a autonomia editorial fica inevitavelmente comprometida, abrindo espaço para autocensura, alinhamento narrativo e silenciamento de temas incómodos.

A consequência mais visível é a perda de credibilidade. E essa perda não é recente. A TVM já deixou, há muito tempo, de ser percebida como fonte confiável por uma parte significativa da população. O público entende que os salários estão garantidos pelo poder político e que, por isso, a preocupação em reconquistar confiança social tornou-se secundária. Quando a sobrevivência financeira de um órgão não depende do público, mas do governo, a tentação de agradar ao poder supera o compromisso com o cidadão.

É importante deixar claro: um órgão de comunicação do Estado não precisa, nem deve, submeter-se ao Governo. Deve responder à Constituição, à lei, ao interesse público e aos cidadãos. O Governo administra o Estado, mas não é dono dele. Confundir essas esferas é abrir caminho para a instrumentalização da informação e para o enfraquecimento do espaço público democrático.

Num contexto em que muitos cidadãos já recorrem mais a redes sociais, blogueiros e influenciadores para se informar, decisões como esta apenas aprofundam a desconfiança nas instituições formais de comunicação. Não porque estas não tenham capacidade técnica ou profissional, mas porque perderam a independência percebida, que é o bem mais precioso do jornalismo.

A mudança de domínio da TVM não é um detalhe técnico irrelevante. É um sinal. Um símbolo de alinhamento institucional. E símbolos importam, especialmente num país que ainda luta para consolidar uma cultura democrática sólida e uma comunicação pública verdadeiramente ao serviço do povo.

Quando a televisão do Estado se assume como televisão do Governo, quem perde não é apenas o jornalismo. É o cidadão. E sem um cidadão bem informado e confiante nas instituições, nenhuma democracia se sustenta.

 

Tags: AssumeEstadoGoverno
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