Apesar do boicote do presidente norte-americano, Donald Trump, os líderes presentes adoptarem uma declaração conjunta que aborda a crise climática e outras preocupações globais, texto esse que Washington contestou, mas que, segundo Pretória, “não pode ser renegociado”.
O porta-voz do Presidente Cyril Ramaphosa sublinhou que o acordo climático é resultado de meses de negociações intensas, destacando que a oposição dos EUA não será suficiente para reabrir o documento. A posição firme da África do Sul simboliza a intenção do continente de afirmar protagonismo na sua primeira presidência do G20.
No discurso de abertura, Ramaphosa lembrou que a cimeira “carrega as esperanças e as aspirações dos povos africanos” e apelou aos líderes para preservarem o valor histórico desta edição, a primeira em solo africano.
Apesar da agenda formal se concentrar em temas económicos e climáticos, o plano de paz dos EUA para a Ucrânia assumiu o centro das atenções nos bastidores. A proposta, que inclui concessões territoriais à Rússia e limitações militares à Ucrânia, alarmou aliados europeus e forçou reuniões de emergência entre líderes do bloco.
Numa declaração conjunta emitida à margem da cimeira, os líderes da UE, incluindo Úrsula von der Leyen e António Costa, enfatizaram que quaisquer elementos que envolvam a União Europeia ou a NATO só podem avançar com o consentimento pleno dos seus membros. A UE reconheceu que o documento norte-americano contém “pontos relevantes para uma paz justa”, mas sublinhou ser somente uma base que “exigirá trabalho adicional”.
A posição europeia reforça a preocupação crescente com o papel do continente na futura arquitectura de segurança ucraniana. O primeiro-ministro britânico Keir Starmer, o presidente francês Emmanuel Macron e o chanceler alemão Friedrich Merz reuniram-se para discutir alternativas ao plano de Washington e defender uma abordagem mais alinhada com os interesses europeus e a integridade territorial da Ucrânia.
Von der Leyen, ao intervir na sessão plenária, apelou a um crescimento económico “inclusivo e sustentável” e destacou a necessidade de respostas coordenadas aos desequilíbrios globais. Sublinhou ainda que a Europa tem responsabilidades próprias, mas que o esforço para corrigir assimetrias deve ser “colectivo”.
A diplomacia europeia intensificou-se nos bastidores, com contactos directos com o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, que participou por telefone na véspera da cimeira. A mensagem comum foi a de reafirmar apoio a Kiev e a necessidade de qualquer solução de paz, respeitar o princípio fundamental de que “fronteiras não podem ser alteradas pela força”.
A ausência dos EUA, o desentendimento quanto ao plano climático e a controvérsia sobre o futuro da guerra na Ucrânia dominaram o arranque de uma cimeira que pretendia exaltar o protagonismo africano. Em vez disso, Joanesburgo tornou-se palco de debates urgentes sobre segurança global, multilateralismo e o equilíbrio de poder entre Ocidente e emergentes.
Como estas tensões serão conciliadas nos próximos dias irá determinar não apenas o tom final da declaração do G20, mas também o posicionamento internacional da África do Sul como anfitriã de uma das mais complexas edições do grupo. (Nando Mabica)

