Apesar das garantias do governo de que não há casos de fome, a realidade contada pelas comunidades, organizações humanitárias e especialistas aponta para uma crise alimentar crescente e silenciosa.
A contradição das declarações oficiais
Em declarações recentes à STV Notícias, Daniel Agostinho, Director dos Serviços Provinciais de Actividades Económicas, afirmou não haver casos de fome, apesar do terrorismo, creditando o equilíbrio à agricultura local e à assistência humanitária. No entanto, nos distritos como Chiúre, Ancuabe, Mecúfi, Mocímboa da Palma, Palma, Quissanga, famílias relatam o contrário: plantações destruídas, insegurança permanente e alimentos inacessíveis.
Aminata Omar, deslocada de guerra de Mocímboa da Praia, mãe de quatro filhos, resume o dilema vivido por milhares:
“Fugimos do nosso distrito devido aos ataques. Não conseguimos trabalhar nas nossas machambas e nem os homens conseguem pescar com segurança na nossa província. O pouco que conseguimos produzir não dá para alimentar a família toda. As crianças choram, eu não sei o que fazer, pois não estou em casa, e perdemos tudo.”
José Nsoko, agricultor de Ancuabe, relata o aumento de preços de alimentos básicos: “O saco de milho dobrou de preço. O óleo e o feijão estão inacessíveis. Com o pouco que vendemos, mal conseguimos comprar comida para uma semana.”
Além do conflito, eventos climáticos extremos, como os ciclones recentes, destroem plantações e aprofundam a insegurança alimentar. Fátima Saíde, de Mecúfi, afirma: “O medo e a falta de recursos nos impedem de plantar. Estamos à mercê da ajuda externa. Aqui em Mecúfi tudo foi embora, incluindo árvores foram tiradas pelo ciclone. Como produzir desse jeito? Passamos fome.”
Deslocamento e Vulnerabilidade
Segundo dados de organizações humanitárias, mais de 600 mil pessoas estão deslocadas na província. Muitas vivem em acampamentos improvisados, sem acesso regular a alimentos, cuidados de saúde ou água potável. Nos centros de acolhimento de Chiúre, a escassez de alimentos tem levado famílias a abandonar os locais de protecção, retornando às suas zonas de origem mesmo sob risco de ataques.
O Programa Mundial para Alimentação (WFP) tem actuado para aliviar a crise. A recente contribuição da Coreia do Sul, de US$ 7,6 milhões e mais de 5 mil toneladas de arroz, permitirá fornecer assistência alimentar a mais de 233 mil pessoas vulneráveis em 2025. Contudo, cortes de financiamento anteriores obrigaram o WFP a reduzir o número de beneficiários de 420 mil para 344 mil, evidenciando a fragilidade da resposta humanitária.
O Impacto do Conflito e do Clima na Segurança Alimentar
Moçambique figura entre os 22 focos de fome mais preocupantes do mundo, segundo a FAO e o PMA. Estima-se que 773 mil pessoas enfrentarão insegurança alimentar aguda entre Outubro de 2024 e Março de 2025, na maioria devido à violência em Cabo Delgado e aos efeitos do fenómeno La Niña, que provoca ciclones, tempestades e inundações mais frequentes.
O deslocamento maciço e a instabilidade impedem o acesso a terras agrícolas, enquanto os preços dos alimentos disparam em meio a uma economia local já fragilizada. A fome não é apenas um problema nutricional; é também social, psicológico e económico, ao impedir famílias de reconstruírem suas vidas com dignidade.
A falha sistémica e o apelo por acção
Entretanto, alguns voluntários que colaboram no apoio aos deslocados denunciam: “Enquanto as autoridades garantem não haver fome, famílias inteiras passam fome silenciosa. A discrepância entre o que dizem e o que se vive no terreno é chocante. Precisamos restaurar a paz e promover coesão social. Sem isso, os esforços humanitários continuarão sendo paliativos. A longo prazo, a reconstrução depende de programas integrados de agricultura sustentável, protecção social, adaptação às mudanças climáticas e inclusão das comunidades na tomada de decisões.
Versão desmentida pela população
Pemba – Maria Afonso, 37 anos, mãe de três filhos: “Estamos vivendo na pobreza absoluta. Comemos caracata, estamos malnutridos, e vêm aqui dizer que não há fome. Não há fome para eles, porque nós, o povo, estamos mal com a fome. As crianças choram de fome e ninguém vê.”
Chiúre – Aminata Omar, 29 anos, agricultora: “Fugimos do nosso distrito devido aos ataques. Não conseguimos trabalhar na machamba devido à insegurança. O pouco que conseguimos produzir não dá para alimentar a família toda. Cada dia é uma luta para que os filhos não durmam com fome.”
Ancuabe – José Muchanga, 45 anos, agricultor: “Os preços dispararam. O feijão e o óleo estão quase inacessíveis. Vendemos o pouco que temos e mesmo assim não conseguimos comprar comida para uma semana. Dizem não haver fome, mas a fome está na nossa mesa todos os dias. Até Nyusi quando era Presidente já nos disse para trabalharmos sendo deslocados. Mas trabalhar aonde?”
Entre a negação e a emergência
A fome em Cabo Delgado não é apenas uma estatística; é uma realidade quotidiana que afecta centenas de milhares de pessoas, invisível para os olhos oficiais. Entre ataques terroristas, deslocamentos forçados e mudanças climáticas, a pobreza, a população enfrenta diariamente a escolha entre a sobrevivência imediata e a esperança de um futuro seguro.
Enquanto o governo mantém uma narrativa de normalidade, a acção humanitária se torna vital, mas insuficiente. A crise em Cabo Delgado é uma lição amarga: sem segurança, financiamento adequado e políticas inclusivas, a fome se transforma de silenciosa em catastrófica. (Milda Langa)







