Em meio às manifestações virou hábito incendiar pneus nas principais estradas, esquinas ou praças dos bairros. Trata-se de pneus utilizados para rodagem em diferentes veículos de transporte de pessoas e carga, constituído basicamente por borracha e outros materiais de reforço.
Visitando a composição química dos pneus notamos que este é constituído de metais pesados, borracha natural e sintética, fumo e óleos negros que no caso de queima, liberam substâncias altamente tóxicas e cancerígenas, poluentes orgânicos e inorgânicos, tais como fumos metálicos, hidrocarbonetos aromáticos, entre outras matérias.
Ao longo dos dias de manifestação era possível ver nuvens negras de fumaça acumulando-se em diferentes pontos. Uma fotografia capturada do outro lado da baía de Maputo mostrou com nitidez o cenário de poluição que este fenómeno causa. Em pleno início da tarde do dia 7 de novembro, a quando do pico das manifestações, a capital do país ficou completamente nublada.
Até ao momento não há registo, e seria impossível contabilizar, de quantos pneus foram incendiados, entretanto as marcas continuam visíveis nos locais onde o fenómeno ocorreu. O chão habitualmente acastanhado transformado por completo na cor preta, asfaltos das vias esburacados, e por vezes alguns resíduos de borracha e ferros, denunciam a queima de pneus.
Os pneus eram queimados por longas horas em zonas densamente habitadas enquanto os manifestantes permaneciam no local e em aglomerados. Este cenário repetia-se dia após dia sempre que se anunciasse a continuação das manifestações.
Especialistas contam que a queima de pneus libera no meio ambiente vários poluentes, como o carbono, enxofre e outros gases mais prejudiciais a saúde e cancerígenos. Contribuindo assim para a destruição da Camada de Ozono bem como causando danos a saúde das pessoas que ficam directa ou indirectamente expostas a fumaça.
Exposição a fumaça da queima de pneu causa doenças respiratórias e cancerígenas
O especialista em saúde pública Policarpo Ribeiro, em entrevista a nossa reportagem, explicou que o acto de queimar pneus causa grande impacto no sistema imunológico e de saúde das pessoas expostas concorrendo para o desenvolvimento de inúmeras doenças.

“As pessoas têm que saber que quando estamos a queimar um pneu nós estamos a alimentar certos produtos químicos que derivam da composição do próprio pneu e esses infelizmente estes compostos químicos são tóxicos e nocivos a saúde. Com isso nós vamos ter graves problemas ao nível da saúde”, explicou.
Entre as perturbações Policarpo Ribeiro refere que as patologias respiratórias são as mais prováveis, entretanto há casos que pode afectar os olhos, a pele e outros órgãos essenciais para a sobrevivência do ser humano.
“Os pulmões podem ser afectados causando problemas respiratórios, mas também as partículas podem ir até o sangue criando problemas cardiovasculares. Em alguns casos a tensão pode subir ou provocar enfartes”, alertou.
“Se as pessoas estiverem expostas podem até desenvolver algumas doenças cancerígenas, por conta destas partículas tóxicas. Podem igualmente ter irritações nos olhos na garganta, dores nas cinturas irritação na pele”, acrescentou.
Para além disso avançou que o fenómeno a longo prazo impacta no custo financeiro para os órgãos sanitários que normalmente devem proporcionar cuidados de saúde a população de forma gratuita.
O especialista em saúde pública disse que as crianças e os idosos constituem principais grupos de risco dada a sua vulnerabilidade. O primeiro grupo por ter a imunidade em desenvolvimento enquanto que o segundo por já estar debilitada.
É neste sentido que Policarpo Ribeiro alerta que não deve haver exposição a fumaça resultante da queima de pneus. Caso sejam incendiados recomenda o uso de máscaras, óculos e outros equipamentos de protecção.
Quilómetros de estrada danificadas na EN4 e Circular de Maputo
Mais de uma dezena de quilómetros de estrada ficaram danificadas em resultado da queima de pneus por manifestantes. Circulando pelas principais estradas da cidade de Maputo assim como das outras capitais provinciais é possível ver marcas de pneus incendiados nos asfaltos.
Engenheiros de construção civil dizem que essa situação de queima de pneus no asfalto contribui para a formação de buracos degradando lentamente as estradas e comprometendo a segurança dos utentes bem como a fluidez da transitabilidade.
Actualmente ainda não foram anunciados os prejuízos e os montantes necessários, no entanto empresas concessionárias das estradas, caso da TRAC e REVIMO, e a Administração Nacional de Estradas, instituição pública responsável pela gestão das estradas, garantem estar a fazer levantamento dos danos para posterior reparação assim que a situação se normalizar.
Queima de pneus num curto espaço geográfico e de tempo polui o meio ambiente
É sabido que os pneus não são biodegradáveis, ou seja, não se decompõem facilmente. É neste sentido que o descarte incorrecto pode causar severos danos ao meio ambiente, por isso a ambientalista Regina Charumar alerta que o fenómeno deve ser controlado.
“Nós estamos a assumir aqui que não há um controle sobre este material. A queima deste material é nociva ao meio ambiente por isso que o processo de descarte e queima tem de ser controlado e feito em lugares apropriados”, orientou.
No entender da ambientalista a destruição do pneu deve ser feita somente por e numa estrutura concebida para o efeito e que possa controlar as partículas expelidas para o ar garantindo que elas não atentem a saúde do planeta.
“Se nós tivermos várias pessoas a queimarem o pneu num curto espaço, nós estamos a assumir que aquele ambiente fica completamente poluído. Isso cria uma série de impactos directos e indirectos para o planeta”, apontou.
Aliás, as fumaças tóxicas oriundas da queima de pneus podem penetrar nos lençóis freáticos, destruir os micro-organismos presentes no solo tornando-o impróprio para o desenvolvimento de plantas uma vez que os escorrimentos dos derivados de pneus demoram até 100 anos para serem decompostos.
Regina Charumar destacou que as implicações deste fenómeno podem não ser imediatas, o certo é que cedo ou tarde todo o ecossistema e sua biodiversidade são colocadas em risco, razão pela qual deve se optar em fazer o descarte correto.
Contudo lembrou que podem ser usadas outras formas de manifestar sem agredir o meio ambiente pois existem estudos apontando que a queima de pneus a céu aberto é 13 mil vezes mais mutagénica que a queima de carvão.
Proibir a queima de pneus em manifestações apontado como solução
Os especialistas das diferentes áreas, ouvidos pela “Integrity Magazine News” destacam que a queima de pneus no país e no mundo deve ser proibida pelo bem dos cidadãos e das futuras gerações.
Fora isso o fenómeno para além de danificar as estradas, bloqueia as vias de acesso dificultando a livre circulação de pessoas e bens. Para tal deve ser feito um trabalho de consciencialização.
“Nós temos que educar, nós temos que informar as pessoas sobre o risco da queima de pneus, porque só assim, as pessoas tendo conhecimento elas poderão mudar de comportamento”, apontou Policarpo Ribeiro.
Depois da consciencialização sugere-se a fase de proibição e penalização para quem infringir a medida optando por esta forma de manifestar em detrimento das outras que não afectam a saúde ou o meio ambiente.
Aliás, em muitos países, caso de Portugal e Brasil, só para citar alguns exemplos, criaram Leis que proíbem a queima de pneus e outros objectos correspondentes que causem prejuízos à saúde e ao meio ambiente, inclusive, em manifestações públicas.
Estas leis foram criadas respondendo os apelos da Organização das Nações Unidas na tentativa de reduzir emissões poluentes dada a severa agressão à natureza. (Ekibal Seda)








