Por Bendito Nascimento
Mas o que começou como uma sinfonia de resistência rapidamente descambou para um noticiário de horror. Em Maputo, policiais, como maestros de uma orquestra de balas, decidiram reger o espetáculo com tiros e gás lacrimogêneo. Na Matola, uma Hilux transformou ruas em linhas de sangue. Em Nampula, o clima era de guerra, tiros pipocavam como fogos de artifício em um Ano Novo trágico. Ao todo, vidas foram ceifadas, jovens feridos e um país abalado.
O barulho das panelas incomodou mais do que o estrondo de explosões ou o eco de promessas não cumpridas. É um paradoxo: o regime, acostumado a discursos ensurdecedores, não consegue tolerar o eco metálico de panelas que denunciam. Por quê? Talvez porque o som não era apenas ruído, mas uma metáfora, um vazio que gritava por justiça.
Lá fora, o mundo tem exemplos semelhantes. Na França de 1789, os tambores anunciavam revoluções. Nos Estados Unidos, o som do povo ecoava no “I Have a Dream” de Martin Luther King Jr. Em Moçambique, ironicamente, o regime que nasceu ao som de balas contra o colonialismo agora teme o som de panelas contra sua própria hegemonia.
A FRELIMO, outrora símbolo da libertação, parece hoje prisioneira de sua própria história. Como a Revolução dos Bichos, de George Orwell, os revolucionários se tornaram opressores. Por que tanto medo de perder uma eleição? Afinal, o poder que se sustenta pela força das armas e não pelo voto do povo não é poder, mas ocupação.
Mondlane, por sua vez, persiste na promessa de restaurar a verdade eleitoral. Mas essa quarta fase trouxe consigo uma pergunta inevitável: até que ponto o preço da resistência vale a pena? Quantas vidas serão sacrificadas? Quem pagará o preço do silêncio comprado à bala?
Aqui está o eufemismo mais cruel: as panelas vazias são um símbolo do que move as manifestações, mas também são uma lembrança de que a fome é a maior aliada da submissão. A cada disparo, a cada vida perdida, a cada panela amassada, é o povo que paga o preço.
Talvez a maior ironia seja que as ruas de Moçambique nunca estiveram tão cheias de barulho, mas tão vazias de resultados. A quarta fase termina com mortos e feridos, mas a verdade eleitoral continua no limbo. Enquanto isso, o poder, como um chief relutante, mantém sua cozinha fechada, recusando-se a servir o prato principal: democracia.
E agora?
O que vem a seguir? Outra fase? Um quinto movimento dessa sinfonia de dor? Ou o silêncio ensurdecedor da resignação? A história nos ensina que nenhum regime opressor é eterno, mas também nos lembra que a liberdade é conquistada, não concedida.
Moçambique, com suas panelas e vozes, nos mostra que o povo tem força. Mas também nos lembra que essa força, quando mal dirigida ou subjugada pela repressão, pode ser sufocada. Talvez o som das panelas precise ser afinado com estratégia e visão. Só assim a sinfonia da resistência poderá terminar em uma grande celebração e não em um réquiem.







