A falta de coragem dá lugar ao medo; este medo que nos embrutece, porque quem nos lidera acaba nos tratando como burros, ignorantes e sem consciência do nosso próprio poder. O medo embrutece-nos porque limita a nossa inteligência e a capacidade de sonhar para além daquilo que nós vimos na caverna. E tem sido assim que regimes ditatoriais, esgotados, acabam por se manterem no poder, dominando através do medo.
Por exemplo, há alguns anos, todos nós éramos educados na base do medo, onde por um simples erro de tabuada éramos brutalmente espancados pelo professor e/ou pelos nossos pais e/ou encarregados de educação. O hino que entoávamos no País exaltava tanto a Frelimo que não havia condições de se pensar “fora da caixa”, pois pairava no ar o medo de sermos vistos como ingratos e, consequentemente, tratado como um “agente” ao serviço da famigerada “mão externa” ou dos tão propalados “inimigos da nossa independência”.
É um facto que o regime implementado pela Frelimo, nos últimos 50 anos, embruteceu-nos através do medo, onde, se tu és crítico, não tens nenhuma oportunidade, e, consequentemente, vives todos os dias a ser ameaçado pela “secreta” e/ou por outros sicários do regime; e, quando tentas combater o medo, acabas numa vala comum, no meio da mata, ou, por sorte, és enterrado como “herói morto”, alguém que, no dia seguinte, todo o mundo facilmente esquece.
Hoje, a juventude moçambicana encontrou um guia que venceu o medo e decidiu combater os causadores deste mal, mas a polícia, que foi formada para intimidar justamente àqueles que devia proteger e não para sensibilizá-los ou educá-los, usa armas mortíferas, como forma de amplificar as mazelas do medo na mente e no coração dos jovens manifestantes, quase sempre indefesos.
Estranhamente, no meio dessa toda tempestade, um novo tipo de medo mais cruel está a emergir: a intolerância opinativa e política, onde as pessoas, por tanto serem atormentadas durante décadas, olham para tudo que é dito contra as razões das suas convicções, como uma razão bastante para activar os protocolos de silenciamento ou intimidação. Torna-se cada vez mais claro que não existem condições de convivência colectiva, devido ao “Estado de medo”, que se implantou no País durante décadas.
Se este cenário se mantiver, poderemos estar num Estado propício para o genocídio. Um Estado onde membros da mesma família irão se decapitar, simplesmente porque um acredita naquele partido e outro já não quer saber do mesmo. E isto é grave, e não só, pois demonstra igualmente que o nosso sistema de educação familiar e formal, e projecto de sociedade falhou definitivamente, porque não fomos educados na base do respeito, mas sim, na base do medo; e é perigoso quando um homem, que viveu por muitos anos acorrentado, se solta, ou seja, pois, tal como o escravo que ficava por meses no navio negreiro em direcção às Américas, a primeira oportunidade que tivesse, matava o senhorio e procurava empreender uma fuga, viver livre!
Os nossos libertadores e “donos das Leis do País” embruteceram a sociedade. Depositaram quantidades avultadas de maços de medo nas mentes e no coração das pessoas que hoje essas pessoas embruteceram-se e querem retaliar tudo que viveram e vivenciam de uma só vez. As políticas de “mão estendida” contribuíram para tudo isso. Deixaram que o povo crescesse sem um horizonte e sem princípios unitários, ou seja, somos um povo que habita no mesmo espaço, mas com tudo diferente e nada de positivo ou em comum, apenas comungamos a acumulação de “fatias do medo”. Não é em vão que sempre que figuras críticas falam numa televisão, a primeira preocupação da família e dos amigos é “tenha cuidado, vão te matar (…) estes não prestam!”, e matam-te mesmo, porque eles não gostam de conviver com quem já venceu o medo.
Quando tu vences o medo és, para eles, um traidor da pátria. Olham para ti como alguém que foi pago para derrubar as “conquistas da independência”, mas, na verdade, eles têm medo que tu possas abrir a vista aos outros e em conjunto lutarem para libertarem-se do medo implantado por eles durante décadas. Por isso, precisamos ter um novo projecto de sociedade, onde a educação prima por falar da coragem, responsabilidade, abnegação e autoestima.
Não podemos continuar a deformar crianças, adolescentes e jovens, nas escolas e nas universidades, simplesmente para perpetuar o bem-estar de uma minoria. Precisamos de construir uma sociedade onde as pessoas são educadas na base do respeito mútuo, empatia, solidariedade, autoestima, liberdade criativa e valorização da vida humana, porque só assim seremos uma Nação próspera e dona de si mesma, onde todos se sentirão donos da terra em que nasceram e pretendem deixar para as gerações vindouras.
Não podemos permitir que o medo vença a nossa vontade de liberdade e de luta pelo desenvolvimento colectivo, onde governar não significa abocanhar todas as riquezas do povo e praticar injustiças sociais extremas. O povo deve lutar até onde pode para vencer este câncer que capturou milhões de sonhos, implantou o medo e justamente hoje, que os jovens colocaram o seu “coração em acção”, que estes senhores que nos governam recorrem à única arma: a operacionalização do medo [gás lacrimogêneo, balas de borrachas, balas verdadeiras, discursos antigos de supostos inimigos da independência e tantas outras acusações infundadas]! Esses senhores esqueceram-se que um dia usaram meios piores que estes: sabotagem, infiltração, assassinatos e guerra contra o colonizador português!
É preciso usar a coragem para o bem, não para implantar um novo medo, porque isto só nos embrutece e aumenta o divisionismo e a intolerância, factores que acabam beneficiando o novo colono: o regime irá gastar todos os cartuchos de balas e todos os assassinos do sistema para se manter no poder, mesmo que seja para sequestrar os netos e parentes de todos aqueles que têm a última palavra no contencioso eleitoral para virem em frente de todos ler e citar Leis que não existem e anunciar resultados eleitorais falsos.
É preciso viver sem medo, para que se morra lutando por uma causa maior, e não como um cobarde perdido nos copos ou como um lambe-botas exacerbado que se contenta com migalhas que vão caindo da farta mesa, do grande banquete bem acima de ti, mas que não és permitido te sentares à mesa.
É preciso viver sem medo e retirar do poder esses sanguessugas obesos, agarrados, por unhas e dentes, à pele do Estado, que, mesmo saciados, pretendem continuar a mamar das tetas do Estado até a morte! (Omardine Omar)





