Mãe, que língua falas?

Timóteo Papel

Era uma tarde cheia de asco. Eu acabara de voltar da escola e a minha mãe da machamba. Estávamos ambos visivelmente cansados. Eu de escutar, por longas horas, um professor cuja língua que usava para se comunicar pouco dominava e a minha mãe cansada das queimas do sol, naqueles campos cujos céus negavam-se a irrigá-los. Eu não tinha pai, ela não tinha marido. Aquele que fora seu marido e meu pai, seguira um caminho sem volta – dizia sempre a minha mãe em gestos. Eu não tinha idade para compreender aquelas metáforas. Os meus irmãos também. Ela, a minha mãe, para dar ênfase a sua crença, servia-lhe sempre comida naquela pequena mesinha e banco onde o meu pai gostava de sentar-se para ter a refeição. Não sei se aquilo que a minha mãe nos servia era digno de assim ser tratado – refeição. Mas era o que garantia a continuidade da nossa existência no dia que vinha depois daquele. Fizera aquilo por longos anos. Até não ter mais forças para levar à boca a sua própria mão com comida. Vivíamos na mesma casa, mas pouco comunicávamo-nos. Ela não queria que nós aprendêssemos a sua língua e ela não aprendera as línguas que queria que nós aprendêssemos. Por isso, falava mais com gestos que com palavras. Crescemos e apoiou todos os nossos sonhos em silêncio, até os que contrastavam com as suas crenças. Sempre que viajasse para algum lugar, esperava-me de pé. Queria estar pronta para receber-me quando regressasse – dizia. Nunca se espera por filho deitado numa esteira, pois na esteira é para morrer todas as noites e não esperar uma vida – continuava.

Num belo dia, disse comigo: a mãe que tenho não é a que eu queria ter. Eu queria uma mãe como a do Marques. Uma mulher bonita, adornada e cheia de requintes em seu corpo. Uma mulher que trata da Língua Portuguesa por tu, assim como minha mãe trata da enxada para produzir comida. A mesma que nos manteve vivos e nos mantém até hoje. Eu queria uma mãe que soubesse andar de um salto de 12cm, mas a minha mãe sabe andar é descalça. Aliás, ela não anda, caminha para frente como quem busca um destino que já lhe foi traçado.

A minha mãe não conhece a cor de uma escola nem as cores do giz, pois nunca pisou numa. Sempre fora dita que essa coisa de estudar era para os homens. As mulheres deveriam era ficar em casa a brincar com a enxada e a aprender a cuidar dos irmãos que estudavam, pois estes deveriam sempre encontrar a refeição pronta assim que regressassem da escola. A minha mãe mais do que uma filha, cresceu como uma trabalhadora doméstica dentro da casa dos seus próprios pais. E foi assim a vida toda. Uma doméstica desremunerada.

O que não teve numa, teve noutra. Aprendeu logo cedo a amar aos outros mais do que a si mesma. E acabou engolida neste sentimento. Hoje não vive por si, vive sempre pelos outros. Os mesmos que a apunhalam pelas costas sempre que se vira. A minha mãe não sabe costurar letras em qualquer língua. O que aprendeu foi costurar roupas para vestir os nossos troncos nus. Costurar a terra para encher os nossos estômagos de alguma coisa. Nesta vida só sabe comunicar-se em Ximakonde. Aliás, ela não se comunica, apenas fala. Comunicar-se é ser entendido. Ela nunca foi entendida. Ninguém nunca entendeu através do seu olhar, os céus que desabavam sobre si. Para ela, o Ximakonde é a única língua oficial que existe no mundo. Foi a única língua que aprendeu dos seus antepassados.

Os seus filhos, que com sacrifícios mandou às melhores escolas, comunicam-se apenas em português e inglês. Essas línguas que soam a estranheza aos seus ouvidos. Como nenhum dos seus filhos fala em Ximakonde, ela passa a vida em silêncio. E, de vez em vez fala com os seus antepassados também em silêncio. Até os seus passos deixaram de produzir eco. Olha para os filhos com orgulho. Sorri em silêncio sempre que estes se comunicam em inglês ou em português. Está feliz de os ter mandado a escola, mas também entristece-se pelo facto de os ter arrancado das suas raízes.

Hoje não sabe da identidade certa dos seus filhos. Se são makondes de Moçambique ou portugueses de Leiria de pele escura ou apenas britânicos moçambicanizados. Vive como uma pessoa cuja língua lhe foi arrancada durante o parto, para que não partilhasse com o mundo, as dores que a sua mãe sentira. É neste silêncio que ela se move, neste mundo em que todos gritam.

A minha mãe não é como a do Marques, mas ela é a melhor mãe do mundo, porque quando o mundo negava-me tudo, ela dava-me até o que não tinha para me tornar gente. Hoje não sei se sou gente, porque gente de verdade conhece as suas raízes e as suas origens. Comunico-me numa língua que não me pertence e os meus antepassados não a entendem. (In)felizmente empenho-me a fazer o mesmo com os meus filhos. Não os ensino o Ximakonde, a língua da minha mãe e dos meus antepassados, pois também eu não a conheço e nunca aprendi a falar. Queria ser civilizado e terminei ignorante de tudo o que me manteve vivo.

Não sei donde sou nem quem sou. Não tenho raízes nem identidade. Lembro-me vagamente do rosto de minha cheia de tatuagens e missangas no pescoço. Queria tê-la levado para tantos jantares de gala que fui enquanto ela dormia de estômago vazio. Queria tê-la abraçado quando podia e não o fiz, porque andava tão ocupado com os meus amigos virtuais, aqueles com quem falava a mesma língua, mas desaprendera a língua de quem esvaziou o peito para encher-me o estômago.

Hoje quero desaprender o português, o inglês e o francês para em seu lugar aprender o ximakonde de minha mãe, o suaíli de minha avó e o sena do meu avô. Quero sentar-me debaixo da árvore para oferecer aos meus antepassados as mesmas oferendas que a minha mãe oferecia ao meu pai em silêncio. Quero tirar este fato e gravata, amarrar a minha mughonda, trepar o coqueiro e lá do alto beber a água de lanho enquanto olho a vastidão das terras que me deixaram. As mesmas terras que o Estado me quer tirar ou me tira dia e noite para dar aos chineses, franceses, ruandeses e outros que paguem melhor que eu consiga pagar. Agora como a minha mãe falava em silêncio e em gestos, falo também eu em silêncio com o mundo. Não falo com gestos, porque ninguém compreenderia os meus gestos. Então, para não ser confundido, o silêncio virou a minha força motriz.  Vivo em silêncio como quem guarda na garganta os segredos do mundo. Ou as curas de tantas doenças que não se curam no mundo.

PS: Docente, Poeta e Escritor; e-mail: gentilpapel@gmail.com

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