Lunga, antes e depois: o outro lado do naufrágio na Ilha de Moçambique

Esperei muito tempo, até que o luto passasse, foi necessário aguardar para que os ânimos abrandassem. Estava evitando viver a dualidade da histeria colectiva: ouviu e opinou, ou seja, está informado e emitiu opinião. Há um momento em que não dá para falar ou ʺreagir, é preciso agirʺ. Conforme S. Excia Presidente da República (Filipe Nyusi, 10/03/2024). Reconheço essa parte que refere a ʺnão reacçãoʺ. Agora, não sei se devemos agir depois dos acontecimentos ou antes aí, eu não sei. Quem sabe? S. Excia ʺEu confio em tiʺ, porque é Engenheiro e, Segundo Mwamwenda (2005), na Engenharia a Física (onde se estuda as leis da natureza) é tratada como a anatomia para os médicos e a Psicologia de Aprendizagem para os professores.

Por: Wilson Profirio Nicaquela

Neste texto irreverente(?!), não procuro falar, apenas, de factos actuais associados àquele trágico acidente que correu o mundo através dos órgãos de comunicação social que se basearam nos ʺrumoresʺ espalhados em redes sociais. Desta vez, embora não tenha sido ético a exposição dos corpos (isso emerge na consciência pós-decisória), as redes sociais prestaram tributo ao mundo com a sua velocidade de luz na partilha daquela informação.

Assim, o meu foco reside no outro lado do Naufrágio. Aquele trágico acidente que matou mais de 98 pessoas conforme os dados oficiais, não é consequência, apenas, do aqui e agora (a ignorância), sim, aqueles compatriotas naufragados (Deus os tenha) eram provenientes de uma zona, embora da costa, com condições agro-geológicas muito especiais. Essa realidade faz com que seja a zona mais produtiva e um dos maiores centros de pesca do Distrito de Mossuril, estou falando do Posto Administrativo de Lunga. Ou seja, os náufragos provinham do celeiro do Distrito de Mossuril e Ilha de Moçambique.  Até aí, todos sabemos, desde os recém-chegados e os mais novos residentes da Ilha de Moçambique, sabem disso.

A outra coisa que se sabe é de que Lunga é dos menos desenvolvidos, fazendo com que a procura pela vida condigna seja maior. Aliás, o tal baixo desenvolvimento inclui a falta de energia elétrica e vias de acesso em condições de transitabilidade e outras infra-estruturas sociais, para além da ausência do estado, isso é um facto.

Entretanto, poucos sabem que, durante o colonialismo, Lunga foi um importante centro de formação do Capital Humano, através da acção prolongada do Estado Português, que era exercida pela Igreja Católica. Foi por meio da Igreja Católica, que uma das famílias mais respeitadas da Província de Nampula ʺOS VIEGASʺ, viveram ou nasceram naquela circunscrição dos Mukuto-Munos e Farlahis. Não pararia por aí, iria lembrar que, foi na missão de Lunga que uma das grandes figuras ilustres do Governo de Guebuza teve o seu ABC (procurem). Só a missão era suficiente? Não, mas o Estado tinha o total controlo desde o mar, o ar e a terra, naquele tempo, mesmo os ladrões eram conhecidos pelas pegadas de seus pés.

Embora isso pareça ser do domínio de muitos, há mais um outro lado de que não se sabe sobre Lunga. Aquele posto Administrativo foi dos mais assolados pela fratricida guerra, a mesma guerra dos 16 anos, ou se quisermos a guerra entre irmãos, como cunhou o Sociólogo que, depois virou parlamentar (David Alone).  Muitos não sabem que, em Lunga existiam 2 bases da Renamo, no tal tempo de guerra, nomeadamente a de Mwalo e a de Wanamavura que, provavelmente, podem ter contribuído na (des)continuidade do processo de desenvolvimento iniciado durante a época colonial.

Pouca gente sabe que a desinformação e a consequente fuga em massa da população de Lunga para outros territórios, tais como Liupo, Monapo e Ilha de Moçambique, é ancestral (desde as lutas de resistência, a tal guerra civil e nesta fase das pandemias). No meio do debate em volta das causas do naufrágio emerge o conceito de IGNORÂNCIA, que predomina a população daquele Posto Administrativo, pode ser. Com efeito, a minha experiência empírica permite-me sublinhar alguns factos, Lunga é um dos postos administrativos com maior índice de desistências e absentismo escolar a nível do distrito de Mossuril, conforme um estudo que realizei em 2016, sob financiamento do Projeto APRENDER A LER. (Valoy, Nicaquela, Machaieie, et al, 2016).

Um outro estudo sob minha orientação refere que, no Posto Administrativo de Lunga acontecem feiras agrícolas durante 6 dias por semana, ou seja, de Terça Feira a sábado, o que impede a assiduidade dos alunos nas escolas. Os alunos de ambos sexos participam nas feiras vendendo produtos agrícolas e pesqueiros. Curiosamente, embora seja a zona mais produtiva, em muitas escolas foi introduzido o programa lanche escolar como estratégia de retenção das crianças das primeira e segunda infâncias nas escolas, uma política que parece estar a produzir poucos resultados, tendo em conta que, a fome parece não ser a causa do abandono e absentismo escolar e muito menos os chamados casamentos prematuros.

Nesse sentido, as causas daquele naufrágio não são isoladas, são um acumular de factores, que precisam ser estudados e transformados em objectos de trabalho na implementação de políticas públicas, desde a actualização de mensagens educativas nas comunidades aos conteúdos escolares. Pessoalmente, quando trabalhei como assistente do Administrador do Distrito de Monapo, um dos que tem sido palco da CÓLERA, sugeri a extinção do termo CLORO nas mensagens de profilaxia e o uso do termo CERTEZA por extensão, como forma de reduzir os erros de percepção.

Enquanto as notícias continuam apontando a desinformação associada à cólera dominam os ouvidos, que recebem as informações formais, há outras de baixo das acácias, que apontam outros factores do passado, do presente e do futuro, que contribuem para a manutenção da suposta ignorância informada e não conhecida no seio dos populares. Não sei se vale a pena agir ou reagir, não sei mesmo.

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