Festival do Jazz do M-Bassline regressa com Neco Novellas, Deodato Siquir e Mingas

Pelo terceiro ano consecutivo, o Centro Cultural M-Bassline, na Matola-Rio, acolhe o festival de jazz. Marcado para o dia 30 de Abril, data que se celebra o ritmo jazz em todo o mundo, o evento que inicia às 19h00 junta os moçambicanos Neco Novellas, Deodato Siquir e Mingas.

Trata-se de uma noite singular, com um teor intimista, por isso o evento terá lugar no auditório do M-Bassline, contrariando os outros dois eventos que aconteceram no átrio. Para além deste pormenor, a celebração do jazz em Boane destaca artistas moçambicanos na diáspora: um na Holanda, Neco Novellas e outro na Suécia e Dinamarca, Deodato Siquir, para além da Mingas, como madrinha do evento.

Aliás, o conceito ‘padrinho’ sempre esteve presente nas edições anteriores. No primeiro ano, 2022, foi a banda Ghorwane e ano passado, 2023, coube Wazimbo ocupar este papel. Estes artistas, com estatuto de padrinho, são os que encerram a festa, trazendo outras sonoridades e suscitando outras abordagens aos eventos.

Não será apenas uma noite de celebração do jazz moçambicano feito na diáspora, mas, acima de tudo, a celebração de dois projectos ousados, que rompem paradigmas quando o quesito são performances musicais.

Ora, Neco Novellas, quem não actua em Moçambique há cerca de 10 anos e a sua passagem por sua terra-natal coincide com a comemoração dos 50 anos, traz-nos um conceito fora do comum, com uma actuação a solo, um exercício do seu último álbum – ‘Chasing traces’ – que viaja às suas origens moçambicanas, combinando o afro-jazz e a marrabenta.

Deodato Siquir, por sua vez, propõe uma actuação que cruza os seus três álbuns, embora com principal incidência para o ‘Together’, sua última proposta discográfica, com sonoridades acústicas, mas arrojada, que leva ao palco um quarteto e três vozes.

Mingas encerra a noite a pretexto de homenagem ao falecido Chico António, sua dupla de vários anos com ‘Baila Maria’, música vencedora do prémio Rádio France Internacional (RFI) em 1990, para além de estar a homenagear a mulher moçambicana no encerramento do seu mês.

De acordo com Válter Simbine, o facto de M-Bassline aventurar-se para o um concerto desta dimensão no seu auditório é uma experiência de salutar e a equipa têm boas expectativas por esta razão, para além de estarem reunidos artistas que atiçam o público amante de música, sobretudo o jazz.

O Festival do Jazz do M-Bassline é acompanhado de uma feira do livro e do disco e artigos de artesanato, para “unir toda a cadeia de valor da indústria cultural e criativa e porque nem sempre é fácil obter as obras dos artistas que estarão em palco”, sublinha Simbine.

De sublinhar que o M-Bassline é a única instituição com cariz de centro cultural na província de Maputo, localizado na rua da Escola Primária de Djuba, na Matola-Rio. Inaugurado em 2022, o espaço fragmenta-se em quatro – um ‘jazz club’, um auditório, um lounge (ainda em projecção) e um átrio que acolheu as duas edições anteriores do Festival do Jazz M-Bassline.

Neco Novellas, Deodato Siquir e Mingas: três vozes que vão (en)cantar no Dia Internacional do Jazz

Neco Novellas nasceu e cresceu em Moçambique, na tribo Chopi, famosa pela sua música timbila. Desde muito jovem esteve imerso na música, descobrir sons diferentes fez parte do seu crescimento: em casa, na escola, na igreja e na natureza.

A sua fama e reconhecimento em Moçambique levou-o a Portugal para estudar guitarra clássica e canto e, para Holanda, onde estudou música clássica ópera no Conservatório de Música Codarts Rotterdam.

Seu estilo musical desenvolveu-se pela curiosidade pelos sons. Ele foi influenciado pela música tradicional africana local, música clássica, folk e jazz, criando, assim, o seu próprio som universal único, expressando-se através das suas línguas tribais.

Novellas produziu sete CD’s, deu concertos por toda a Europa, África e América Latina e, como se não bastasse, coopera constantemente com numerosos artistas nacionais e internacionais.

Deodato Siquir, por sua vez, nasceu em 1975, em Maputo, no seio de uma família musical. Crescendo em Maputo, aprendeu a tocar numa bateria por si construída, composta por latas, arames e plásticos, juntando-se à primeira banda Escolinha Vamos Brincar, em 1988, na Organização Continuadores da Revolução Moçambicana.

Aos 15 anos já se apresentava com orquestras profissionais e músicos internacionais visitando Moçambique.

De 1990 a 2000, em Moçambique, Siquir trabalhou como acompanhante de vários artistas, como Eloy Vasco, Stewart Sukuma, Leman Pinto e Dua Maciel. Em 1997 forma a sua primeira banda, Mozafro. Em 2001 emigrou para a Escandinávia (Suécia e Dinamarca), estabelecendo uma grande rede de colaboradores ao longo dos anos e, rapidamente, tornou-se num dos acompanhantes mais solicitados no cenário do jazz e worldmusic.

A sua carreira foi marcada pelo seu álbum de estreia, ‘Balanço’. Em 2007. Em 2011 lança o seu segundo álbum, ‘Mutema’. Actualmente com um novo álbum, ‘Together’, o terceiro de originais concorrendo já para o World Music Charts Europe.

Siquir foi vencedor do Prémio Descoberta Ngoma Moçambique, em 2008, e, ao longo dos anos, na Escandinávia, colaborou com muitos artistas nacionais e internacionais e orquestras.

Elisa Domingas Salatiel Jamisse ou simplesmente Mingas teve uma educação religiosa, daí que a sua iniciação musical tenha decorrido na Igreja Metodista Unida, onde integrou os corais infantil e juvenil. Um dos exemplos disso é a criação de um trio com Safrão Navesse e Silva Zunguze, também da Igreja Metodista Unida, que interpretava canções religiosas.

Aos 17 anos, Mingas acompanha uma amiga aos escritórios dos produtores do espectáculo ‘Foguetão’, dirigido por Alex Barbosa, e fica a saber que estavam à procura de uma voz. Na audição interpreta a canção “I dont know how to love him”, da trilha sonora do filme ‘Jesus Christ Superstar’. Tendo sido aceite, os produtores propuseram que cantasse ‘I Need You’, dos O’jays, no Cine Estúdio 222.

Mingas é compositora, cantora, vencedora de vários prémios e também activista na defesa dos direitos humanos. A sua integração no Grupo RM e na Orquestra Marrabenta Star de Moçambique ajudou-a a estabelecer o seu nome na arena musical do país.

Mingas realiza digressões nacionais com o grupo Hokolokwé, entre 1982 e 1983, e em 1987 faz as primeiras digressões internacionais Orquestra Marrabenta Star. No Zimbabwe, Mingas, que além de cantar era dançarina da Orquestra Marrabenta, teve a oportunidade de partilhar o palco com Miriam Makeba, Paul Simon, Harry Belafonte, Manu Dibango, Hugh Masekela, entre outros. Em 1988, no Concerto Child Survival and Development Symposium, organizado pela organização internacional Save the Children. Foi também neste país que o grupo gravou os discos ‘Independance’ e ‘Piquenique’, ambos publicados pela editora alemã Piranha, em 1989 e 1996, respectivamente.

Em 1989, Mingas passa a integrar o Grupo RM, do qual mais tarde se tornou líder. O passo foi um marco indelével na sua vida musical, passando a ganhar mais notoriedade e espaço. Com garantido sucesso no mercado interno, Mingas procurava nesta fase conquistar outras praças. O ponto de entrada foi dado pelo registo da canção ‘Baila Maria’, um dueto com Chico António, que, em 1990, conquistou o ‘Grand Prix Decouvertes 90’ (Grande Prémio do Concurso Descobertas), organizado pela Rádio France Internationale (RFI). O prémio foi entregue, no mesmo ano, na Guiné Conakry.

Frise-se que o Dia Internacional do Jazz celebra-se, este ano, com o lema ‘Jazz como instrumento educativo e uma força de paz, unidade, diálogo e cooperação reforçada entre as pessoas’.

 

 

 

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